2012/01/23

Ecologia vs. Ambientalismo: Porque sou Ecologista

Modificando a minha já tradicional "fórmula" no que aos títulos diz respeito, senti necessidade de me exprimir, quase a roçar o âmbito da filosofia, a propósito das minhas posições políticas. Este será o primeiro de vários textos (dois ou três), onde explicitarei precisamente essas posições e, acima de posições, as minhas opções. Sim, porque de opções se tratam. Não é apenas decidir colocar a cruzinha uma vez de quatro em quatro anos, é decidir como viver - é escolher um modo de vida, de agir, de pensar, de ser social. Porque, se antes de qualquer coisa, eu não transponho a minha forma de viver para o meu eu político, sou apenas um hipócrita irresponsável.

Assim, antes de saber quem sou na política, tenho que saber quem sou, ponto. Como ajo. O que faço no meu dia-a-dia para contribuir para a realização da minha visão de um mundo melhor. Em descobrindo isso - e creio já ter descoberto -, posso, então, passar para a política. Não digo passar para a política lendo e estudando tudo de cada partido - não ainda, pelo menos -; digo, isso sim, posicionar-me a um nível, não ideológico (que tal, estou em crer, demora anos e anos a formar-se e é simplesmente estúpido ou ignorante afirmar aos 20 anos que sei qual a minha ideologia), mas de ideias. Isto é, que ideias que pululam no mundo todo, neste vasto mundo, é que me agradam? Que ideias adoptar como minhas, modificando-as e dando pequenos toques para que, pela minha pessoa, fiquem perfeitas?

Descobre-se essas ideias e pode-se, então, passar para a política mais a sério. Aí sim, no contexto de um determinado país, estudar os seus partidos e conhecê-los, sem excepção - às vezes são nos pequenos que residem as grandes surpresas. E, se não houver um partido, que tal criar-se um? Porque não? Medo do insucesso? Porquê? Pela minha parte, é sabido o sítio onde encontrei lugar para as minhas ideias. Encontrei-as no Partido Ecologista "Os Verdes". Mas não é para justificar a minha adesão a este partido que escrevo estes textos. É para mostrar a forma como pensei e para garantir, dando o exemplo, que não é difícil - de todo! - pensar politicamente. E isso começa, precisamente, pela selecção de ideias.

A primeira coisa que me veio à cabeça quando me comecei a procurar e a sondar, foi que tenho um respeito enorme pelo ambiente e queria um partido que isso representasse. Creio que, sem ambiente, não pode haver Homem que se aguente, por isso, respeitar o nosso ambiente porque é o ambiente a nossa casa.

Pondo de lado as frases feitas, esta minha descoberta levantou-me, desde logo, umas quantas questões. Umas que se perderam e se foram da memória, uma que dará lugar a todo um outro texto e ainda outra, que é a que se apresenta no título: Ecologia ou Ambientalismo?

Começo, desde já, por querer fazer uma distinção entre o que eu considero ser uma e ser a outra. Recorrerei a exemplos mais práticos para ilustrar esse meu ponto de vista, mas reitero que não passa disso: de um ponto de vista.

Entendo, então, por Ecologia, aquilo que ela é verdadeiramente, na génese da sua designação: a ciência de bem cuidar da nossa casa. Então, que quer isto dizer, no fundo? Tal como com uma casa, também o Mundo, casa de todos nós (lamento a utilização de lugares comuns, mas tem que ser para conseguir ilustrar o meu ponto de vista de forma decente), precisa de ser cuidado, reparado, e onde é preciso fazer o que é preciso ser feito. Um Ecologista é aquele que defende a Ecologia como a forma mais eficaz, acima de qualquer outra ciência, de preservar e fazer a manutenção cuidada e planeada da nossa casa, tendo como ponto de partida a conjugação do bem-estar dos seus habitantes e a sustentação das estruturas da casa. Assim, da mesma forma que é necessário limpar uma casa, a Ecologia advoga a limpeza do planeta; da mesma forma que é preciso, por vezes, mandar uma parede abaixo, mas não de forma a danificar a estrutura da casa, a Ecologia opõe-se às modificações desenfreadas e sem qualquer cuidado.

Já o Ambientalismo, considero-o como uma espécie de Ecologia conservadora. Ou seja, se, por um lado, a Ecologia procura o desenvolvimento paralelo de todas as espécies em harmonia com o desenvolvimento humano controlado, o Ambientalismo sobrepõe a importância do ambiente à importância do ser humano. Assim, o Ambientalismo advoga a permanência do ambiente tal como deveria estar, intocável e no seu estado mais primitivo, com o mínimo possível de alterações ou controle do Homem. O Ambientalismo quer dar tanta importância ao ambiente e aos outros animais como ao Homem.

Ora, no título deste texto, já disse o que sou: sou Ecologista. A minha justificação é simples, embora tenha sido complicado chegar até ela. Tive que comparar ambos muito bem, chegar a um ponto tal, que eu não conseguiria argumentar o contrário a mim próprio se o quisesse. Basicamente, então, sou Ecologista porque é intrínseco ao meu sistema de crenças e valores que o Homem tem poder. Não num sentido necessariamente negativo - embora também tenha o seu lado negro. Creio que, da mesma forma que o Homem já fez muito mal ao planeta, tem as condições para fazer muito bem, e, em simultâneo, não deixar de se desenvolver. Cabe ao Homem repor todas as árvores que abateu cegamente; mas cabe também ao Homem abater o que precisa de ser abatido para o bem-estar das espécies da região, incluindo, mas não exclusivamente, ele próprio. O Homem tem o dever de conciliar, pela sua inteligência e racionalidade, o bem-estar das espécies, controlando o ambiente e agindo de forma a sustentar o seu desenvolvimento.

Pelo meu ponto de vista, o Homem não pode deixar a natureza e o ambiente desenvolverem-se de forma desenfreada, e tampouco intervir de acordo a restaurar um equilíbrio que se poderia tornar perigoso para as espécies. Não deve, também, e com o conhecimento que actualmente se tem, ter acções destrutivas para com o meio ambiente e, regressando à metáfora realista da casa, limpá-la e manuseá-la com muito cuidado, para nunca vir abaixo.

Pelo contrário, os Ambientalistas o que querem, no fundo, fazer é pegar num singelo T1 e construir um castelo à sua volta para que fique sempre imaculado. O Ambientalista é aquele que faz propostas no sentido de que tudo volte ao seu estado primitivo, sem pensar nas adaptações que se fizeram entretanto. Um Ambientalista é o que quer destruir o trabalho do Ecologista através de acções tão irresponsáveis como as de alguém que corta uma floresta inteira. O Ambientalista é um extremista. Leva o ambiente como um deus e em que nós, os Homens, não somos nada mais que meros peões da Mãe-Natureza.

Mas não é verdade. O Homem evoluiu de acordo a adaptar-se a qualquer circunstância, através de um pensamento rápido e de um raciocínio lógico incomparáveis a outro ser. O Homem é o único culpado pelo deitar abaixo da parede errada. Mas o prédio ainda não desabou. O Homem não tem que construir um castelo à sua volta e recostar-se a contemplar - tem apenas que construir a parede e, com isso, deitar abaixo a certa e começar uma correcta manutenção. É isto a Ecologia: fazer o que deve ser feito, com base no que se fez antes e a pensar num futuro melhor.

É por isto que sou Ecologista.

2012/01/16

Da minha vida revisitada

Há muitas formas de viver a vida. Não sou ninguém para julgar quais serão melhores, quais serão piores ou quais serão completamente indiferentes à sociedade e ao mundo. Uma coisa é certa: quem vive, afecta outros, e é a partir da forma como se afecta o outro que se podem distinguir as várias formas de viver a vida.

Sem correr o risco de começar a criar todo um tratado filosófico - embora gostasse de o escrever um dia -, quero dizer que vou descrever aqui, não a forma do tratado que seria como toda a gente pode viver, mas sim a forma como eu vivo a minha vida e como deveria vivê-la para eu ser mais feliz. (sim, eu. Não vou dissertar e divagar acerca das vivências dos outros. Seria incorrecto fazê-lo sem ter um rumo completamente definido para a minha própria.)

No fundo, vivo uma vida semi-viva. Sou afectado (não no mau sentido da palavra) por muita gente, numa base diária, e há aqueles que me afectam muito, aqueles que me afectam menos e os que me são completamente irrelevantes. Sou afectado, sobretudo, por aqueles que gosto - amigos, mais que amigos, família... -, mas sinto que não afecto tanta gente como alguns acontecimentos à minha volta. Sou uma espécie de pessoa-fundo: estou lá, despoleto alguns acontecimentos, mas vejo-os a acontecer à parte, e depois sou afectado pela reacção das pessoas a esses acontecimentos. Se, por um lado, não me incomoda não ser eu o acontecimento, por outro sinto que a vida, aquela que eu próprio influencio, me passa ao lado. Sinto que não afecto ninguém. Que quando alguma etapa acaba para mim, as outras pessoas não são minimamente afectadas pela minha partida. Sinto, no fundo, que sou menos que aquilo que poderia ser.

Claro, isto é um registo muito fatalista e negativo, mas não o vejo assim. Sim, é muito mau quando pessoas de quem gosto - as anteriormente referidas e mais - não sentem a minha falta e não as afecto de todo, mas não é nada desagradável passar ao lado da maior parte das pessoas, pessoas de quem não gosto ou que não me dirão nada a longo prazo. Não compensa, é certo, mas é um bom consolo. Teria algumas coisas a contar do primeiro caso e inúmeros a relatar do segundo, mas não vale a pena maçar ninguém com isso.

Agora, sim, seria possível eu viver de forma mais feliz que a que vivo agora. Seria possível eu afectar mais gente.

A grande questão que se coloca, para se saber se se deve mudar alguma coisa na nossa vida é: se eu morresse hoje, agora, aqui, quem sentiria mesmo a minha falta? Pensando a fundo - e pondo de lado os indiferentes - chego a uma conclusão bastante catita. Há duas classes de pessoas: há aquelas que me iriam chorar e que se iriam lembrar do acontecimento da minha morte e esse pensamento as iria assombrar durante muito tempo; e depois há aquelas pessoas que a uma escala muito menor que a morte, não se importam comigo para além de ocasiões amargas e de simples trocas de palavras - aquelas pessoas que me iriam chorar um dia ou dois, que iriam dizer que me iriam lamentar e recordar, mas que, à primeira oportunidade, se esqueceriam de mim.

Não estou a ser azedo nem a querer acusar ninguém individualmente. São grupos de pessoas e não o digo com rancor. Quanto muito, rancor para comigo próprio, por não afectar o segundo grupo de pessoas mais que aquilo que devia, se calhar. Rancor guardaria se houvesse pessoas que eu afecto e que não se importariam à mesma com o meu eu defunto. Creio dessas não existir alguma.

Reflectindo sobre isto e sobre a eterna questão "se pudesses alterar alguma coisa do teu passado, sem consequências apocalípticas, alterarias alguma coisa?", o que eu tenho a dizer é que sou o mais feliz possível. Não alteraria nada no meu passado nem em nada do meu presente porque é aquilo em que fui construído e é aquilo que eu sou e serei. As minhas escolhas, os meus acontecimentos, bons ou maus, certos ou errados, felizes ou infelizes, são meras efemeridades de tudo o que sou. Efemeridades que me afectarão, mas que dessa forma deixam marca naquilo que sou. E mais virão e mais marcas deixarão naquilo que serei.

2011/10/10

Do combate ao novo acordo ortográfico

Informo o caro leitor, ou a cara leitora se de uma leitora efectivamente se tratar, que, até há bastante pouco tempo, tinha uma posição ambígua quanto ao acordo ortográfico. Sim, eu como pecador me confesso. Mas não mais. Pensei muito sobre a questão, consultei o que devia ter consultado antes, vi o que especialistas tinham a dizer sobre o assunto e, finalmente, vi o que não especialistas tinham a dizer sobre o assunto. Em qualquer um dos casos obtive um não: "Não, Tiago, o novo acordo ortográfico não é algo de bom. Vá agora desvia lá o olhar e vai ver filmes badalhocos ou algo mais educativo". E, por isso, depois de chegar à minha conclusão, tive que pensar, como pequeno lutador que sou, em formas e maneiras de combater o acordo. E é disso que este texto trata. Ora, sendo eu um comum cidadão - apesar de pequeno lutador - não há grande coisa que possa fazer. Tivesse eu mais poder e seria tudo mais fácil (aah, a ironia: bradam aos céus e a quem os quiser ouvir que a democracia, esta que temos, é a melhor que podia existir e depois um comum cidadão - aquele que devia ser a base e os alicerces do poder democrático - não pode fazer nada), ou dinheiro, ou ambos, como parece ser sinónimo neste nosso país à beira mar plantado. Mas há uma coisa que posso, efectivamente, fazer. Posso jogar pelas regras e apodrecer o jogo por dentro. Explico.

Tomemos em consideração três palavras: "acção", "Egipto" e "facto". Todas estas palavras têm em comum uma consoante que estar lá ou não estar é igual ao litro, aparentemente. Mas, no entanto, uma delas perde definitivamente a consoante, outra fica com a consoante quando calha e a outra fica com a consoante, pelo menos, até ao acordo de 2025 (a haver). Ou seja, "acção", cujo 'c' é completamente mudo, perde a consoante; "Egipto", cujo 'p' é ou não lido pelas pessoas, dependendo de quem diz a palavra, pode perder ou não a consoante alegadamente muda; e, por fim, "facto", cujo 'c' provoca uma espécie de fecho no som "-(c)to", mantém-se inalterado.

É esta a medida mais polémica do acordo ortográfico e, também, a mais conhecida. O apagar de consoantes quase indiscriminadamente lança sobre a sociedade portuguesa e sobre o pessoal da área de letras um dilema bastante grande. É que, se se apagam as letras que não são lidas, os 'cc' e os 'pp', as próprias palavras mudam. "Directo", por exemplo: lê-se "di-ré-to" porque tem lá um 'c'; perdendo o 'c' nenhum linguista ou intelectualóide me pode impedir de ler o que está lá escrito na verdade, que é "direto", ou seja, "di-rê-to". "Acção", perdendo o 'c', deixa de se ler "Á-ção" para passar a ler "assão", sem acento na primeira vogal. O mesmo com "actor". Na sua excelente crónica desta semana na Revista Visão, escreve o humorista Ricardo Araújo Pereira:
"Recepção" escreve-se com 'p' atrás do 'ç'. É assim porque o 'p' provoca uma convulsão no 'e' - sem lhe tocar.
De facto, é isto o que acontece. Se não houvesse o 'p', "recepção" (lugar onde alguém recebe outras pessoas num estabelecimento, geralmente comercial) seria homófona de "recessão" (aquilo que os ministros das finanças e economia insistem em meter o povo - mas não os ricos), e, como o leitor mais arguto terá já percebido, não são homófonas.

Portanto, o que eu proponho ao caro leitor, à cara leitora e a todos a quem este texto chegar, é jogar pelo jogo dos pseudo-intelectuais e pseudo-linguistas e ler as consoantes outrora mudas. Tornar as consoantes lidas, nem que seja só uma pequena "convulsão", como lhe chama Ricardo Araújo Pereira, um pequeno reflexo vindo do fundo da garganta que faça com que os outros pensem "então mas que raio". Continuem a escrever com o antigo acordo. Insistam e resistam. Inovem a fala, ponham lá as consoantes que fazem falta para as palavras se perceberem. Não deixem que a nossa língua nos seja roubada por uma elite - a língua é de todos e, se for para matar, ao menos que morra de forma democrática. 

(Post publicado em simultâneo no blogue Bananaphone)

2011/09/11

Do 11 de Setembro estadunidense

(Sim, escrevo estadunidense para me referir aos habitantes dos Estados Unidos da América. Não, não sou brasileiro.)

Assinala-se hoje uma década decorrida dos ataques cruéis ao World Trade Center e ao Pentágono. Esses ataques foram uma surpresa para o mundo, uma demonstração de falhas naquele que se gabava de ser o melhor país do mundo. Apesar de vis, cruéis e bárbaros, os ataques de 11 de Setembro de 2001 foram importantes, não somente para os Estados Unidos da América mas, sobretudo, para todo o mundo. Não falo certamente da importância da evolução súbita que houve nos sistemas de segurança aéreos - quem souber fazer as coisas decentemente consegue infiltrar uma bomba num outro sítio onde causará ainda mais vítimas e onde passará uma mensagem ainda maior. Nem falo tampouco da chamada "guerra ao terrorismo", cuja única coisa que trouxe foi um sentimento de insegurança terrível para o povo americano e não só.

Falo, isso sim, do mundo inteiro, a uma maior ou menor escala, ter começado a perceber as coisas horríveis que os Estados Unidos da América são capazes de fazer. Entraram, depois do 11 de Setembro, numa guerra infinita, numa alegada "guerra contra o terrorismo", com um inimigo em mente - Osama Bin Laden. A morte injustificada de milhares e milhares de civis inocentes, o sangue derramado de crianças, mulheres e homens, não são danos colaterais - é crime de guerra! A invasão de países soberanos sem a sua permissão viola todos os acordos de guerra estabelecidos depois da II Guerra Mundial! Os Estados Unidos da América, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, todos os países seus membros e todos os que invadiram o Afeganistão, o Iraque e o Paquistão, causando a morte de 48.644 afegãos e de 1.690.903 iraquianos inocentes deveriam responder em Haia e ser punidos pelos seus crimes!

Não se tratava já de uma invasão preventiva e qualquer um que ache isso ou é idiota ou tem os olhos e os ouvidos tapados do mundo. Não se tratava de uma medida de combate ao terrorismo. Tratava-se da sede de demonstração de poder tipicamente estadunidense, da sua sede de imperialismo e da vontade de conquistar povos, repito, soberanos.

Não é assim que se combate o terrorismo. O terrorismo é combatido percebendo as suas origens. Não tem origem no fundamentalismo religioso - embora isso ajude. Não tem origem num psicopata qualquer - embora isso ajude. Tem origem, isso sim, em algo mais distante, como a invasão dos Estados Unidos da América ao povo e país afegãos no final da década de 80 e deixar aquilo na miséria. Tem origem nas desigualdades, não só sociais, mas também políticas e de género, existentes nesses países e encorajados pelos seus invasores da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Tem origem no sofrimento dos povos às mãos de déspotas apoiados e controlados - muitas vezes - pelos Estados Unidos da América (olá Pinochet - também de um outro 11 de Setembro, tão criminoso como este).

Se os Estados Unidos da América são alguma coisa ao terrorismo não é combatentes - é apoiantes e grandes impulsionadores à escala mundial.

Mas não o povo estadunidense. Esses, obviamente, não têm culpa do sistema. O mesmo sistema que os molda desde crianças para pensarem que tudo está bem, que os canalhas dos muçulmanos, dos comunistas, dos gays e dos pretos é que estão mal. Eles não têm culpa.

E, por isso, no dia de hoje, 11 de Setembro de 2011, dia em que se assinala o décimo aniversário dos ataques terroristas às Torres Gémeas e ao Pentágono, estou com os meus pensamentos virados para as 2.976 pessoas que perderam a vida nas torres. Estou com os milhares que conheciam alguém ou que tinham pessoas queridas e amadas nas torres na altura do ataque e que, infelizmente, perderam a vida. Mas estou também com os meus pensamentos virados para os soldados que morreram numa guerra que não é a sua - americanos e locais. Estou com os meus pensamentos virados para 1.739.547 de inocentes, homens, mulheres e crianças com toda uma vida pela frente, mortos às mãos de de uma guerra que nunca pediram nem desejaram. Para todos eles, sem excepção, ao contrário do que é feito por muitos: Ave atque vale

Aeternum vale.

2011/07/14

De siglas e significados

Tive bastantes dúvidas se haveria de escrever este texto aqui ou não. Ponderei até criar todo um novo blogue só para estes pensamentos. Mas achei que não fazia sentido. São questões que me são caras e que acho que neste espaço tenho todo o direito de pôr o que acho que deve ser posto. E isto, acho, tem que ser publicado nalgum sítio - porque não aqui?

Em conversa com uma amiga de quem gosto muito, tão sensível como qualquer pessoa mentalmente sã relativamente às questões dos direitos das minorias, cheguei à conclusão que há um certo artificialismo nas designações que se usam e que, em último caso, só servem para separar mais do que para unir.
Ora, sejamos honestos connosco próprios. Que diferenças é que há entre um gay e uma lésbica? Bem, claro, para além das óbvias - um gosta de homens e a outra gosta de mulheres. Mas, pondo isso de parte, que diferenças há entre um homem que gosta de homens e uma mulher que gosta de mulheres? Ambos conseguem perfeitamente amar o parceiro ou parceira, ambos conseguem ter afecto, dar e receber carinho... Ambos são homossexuais. Então, para quê diferenciar um homossexual do sexo masculino de uma homossexual do sexo feminino? Porquê separar o L e o G em LGBT(Q) em vez de ficar tudo englobado num grande H?

Repare-se. Poderá ser argumentado que se trata apenas de uma questão de semântica. Ou uma questão prática - gay e lésbica são palavras mais curtas que homossexual. Ou até se poderá argumentar que se trata de uma questão que se convencionou, que é assim e pronto. Refuto estes argumentos de forma bastante simples. Trata-se, obviamente, de uma questão de semântica. E aí é que reside o grande problema. É que as palavras são símbolos elas próprias. Em sendo símbolos, sabe-se que representam algo, mas não é apenas a palavra em si que representa algo, não é apenas o som, as letras que a compõem - é também o contexto. Analisemos a forma como as palavras 'lésbica' e 'gay' estão inseridas na sigla LGBTQ: separadas. E não se pode ignorar esse facto. Separadas semanticamente, separadas praticamente. De resto, não é mais prático escrever gay e lésbica do que escrever homossexual - a diferença é de uma letra e nunca mal nenhum veio ao mundo por alguém ter de inserir mais um caracter. Nem se trata tampouco de uma convenção e, mesmo que se tratasse, as convenções que se consideram obsoletas - e quero desde já dizer que acho a sigla LGBTQ obsoleta e avisar que vou propor mais à frente uma nova designação para a comunidade - são demolidas e sobre os seus restos construídas convenções ou ideias mais modernas e refrescantes.

Porque não juntar, então, o L e o G num só H? Eu explico porquê: porque há uma relutância heterossexista em fazê-lo e isso afecta, ainda que o possa afectar a um nível inconsciente, os activistas da comunidade. É sabido que há um certo desagrado por parte dos heterossexuais para com a comunidade homossexual. No entanto, pergunte-se ao homem heterossexual médio se não gostariam de ver duas mulheres aos beijos e eles dizem que sim. Até algumas mulheres gostariam de ver dois homens aos beijos, sobretudo em algumas culturas de que tenho conhecimento (a japonesa, por exemplo, onde a maior fatia do bolo do yaoi é consumida por mulheres japonesas). Daí a necessidade de separar as águas - lésbicas para um lado, gays para o outro. Mas o que provoca isto? A pensar nesta questão deparei-me com um assunto particular de um rapaz que esteve em vias de namoro com uma rapariga antes de ela se aperceber que era lésbica. Esse rapaz nunca perdeu a esperança de alguma vez a voltar a conquistar e a levar para o lado heterossexual da Força. E creio que é disso que se trata. LGBT, ou só LGB, ou ainda LGBTQ, foram siglas que surgiram logo, mas por mais variantes que houvesse, o L e o G estavam sempre irremediavelmente separados. Não é uma certeza, mas desconfio que isto se deve ao facto de haver uma espécie de esperança colectiva por parte dos heterossexuais de heterossexualizar, cada grupo à sua maneira, os gays e as lésbicas. Daí a necessidade de os manter separados. Até porque, mantendo-os separados, cria uma fraca união que, por vezes, gera a discussões que eu já assisti do género "como é que sendo mulher és capaz de beijar algo sem ser um homem" ou "como é que tu és capaz de gostar desse penduricalho que vocês têm aí". Essas discussões - felizmente raras e reveladoras de homofobia dentro da homossexualidade - são fruto da separação e das barreiras que existem entre as L's e os G's.

Assim, a minha proposta passa, numa primeira fase, por unir essas duas siglas. Não faz sentido não tratar os bois pelos nomes e complicar. LG é, no fundo e à superfície, um H. Por isso, numa primeira fase, a sigla melhor é HBTQ. Mas não acaba aqui.

O B tem de continuar separado. Não fazia sentido que não fosse assim. É uma pessoa que se sente sexual e afectivamente atraída por dois sexos. Mas a designação de T está muito mal representada. Isto porque T pode significar duas coisas, que são diferentes: transexual e transgénero. E, em alguns casos, travesti, mas deixemos esse caso de lado, que terei outros momentos e outras alturas para o debater. Transexualidade é, literalmente "através dos sexos", ao passo que transgénero é "através dos géneros". Se considerarmos que sexos existem dois, mas que género pode ser uma variedade virtualmente infinita de designações dentro de um espectro, temos que os transexuais são pessoas que vão para lá do seu sexo e se adaptam a determinadas realidades do sexo oposto. Transgéneros são aqueles que, pertencendo a um determinado sexo, se vêem como sendo uma pessoa para lá disso, para lá da designação homem/mulher, masculino/feminino. É um assunto dentro do qual, confesso, não estou muito dentro, mas numa hipótese que tenha mais aberta de fazer uma melhor investigação, fá-la-ei.

Assim, mantendo inalterado o B, temos dois T's, ou três, se retirarmos os travestis da designação transexual. Temos então a sigla em construção HBTT. E o Q?

Q é de queer. Literalmente, estranho. Se, de início, esta palavra tinha uma conotação altamente pejorativa, a pouco e pouco foi sendo adoptada e acarinhada pela comunidade HBTT (sim, começa já em funções) e passou a designar ora uma coisa, ora outra. Passou a designar ora as pessoas mais flamboyant (independentemente da sua sexualidade), ora todo e qualquer homo ou bissexual ou transexual ou transgénero que estivesse muito entranhado na cultura heterossexual, assim, estranho, literalmente, a essa cultura. Em ambos os casos a diferença é crucial. É a diferença entre termos uma sigla com cinco letras ou uma sigla com uma letra apenas.

Se se considerar queer como sendo os flamboyant sexual-independentes, temos uma sigla com cinco letras: HBTTQ.

No entanto, considerando queer como sendo qualquer orientação sexual ou de género diferente da heterossexual num mundo heterossexual, temos uma sigla apenas com uma letra: Q. Não vale a pena complicar. Para quê usar etiquetas se fazem todos parte de um grande grupo Q? Para quê subtrair valor de algo que é o mais valioso de todos os nomes? Comunidade Q. Até soa bem. Como um condomínio privado, quase. 

Mas, é certo, nem todos terão as mesmas interpretações. Assim, as duas siglas que proponho em vez de uma obsoleta LGBT(Q) são HBTTQ ou Q. Pessoalmente sou afecto à segunda.

Mas, claro, a velha questão. Isto são tudo artifícios. A grande problemática é que HBTTQ, LGBT(Q) ou Q são tudo coisas inúteis se virmos a questão bem de fundo, aquela questão que eu não me canso de repetir. É que o ideal não é arranjar uma sigla nova, moderna e fresca. A questão é que ninguém é heterossexual, ninguém é homossexual, bissexual, transexual, transgénero ou queer. Somos todos pessoas. Assim, anseio por quando a humanidade deixar esses rótulos de lado e se juntar toda numa grande sigla, a maior delas todas, a que, no fundo, somos todos - P. De pessoas.

2011/06/24

Da naturalidade da homossexualidade

Há "pessoas" (justificam-se as aspas pela minha incerteza da 'pessoalidade' desses seres) que dizem que a homossexualidade é, cito, 'contra-natura'. Curta e grossamente, só digo isto: não é. A homossexualidade existe noutros animais, comprovada e aceite no meio científico, em algumas aves, mamíferos, insectos e répteis. Então, se a homossexualidade está presente em animais tão diferentes como um bisonte ou uma libelinha - que não têm centros de prazer sexual (já explico o porquê deste reparo) -, até que ponto poderão ou não ser verdade alguns argumentos em relação à homossexualidade?

Há uma concepção bastante aceite que teoriza que a homossexualidade é um processo evolutivo que vem unicamente do prazer em ter sexo. No entanto, esta concepção, para além de não ser comprovada com qualquer dado científico, é bastante errada como um argumento contra a homofobia. Diria mesmo que é uma concepção a roçar o perigoso. As intenções serão, por ventura, boas. Percebe-se porque é que algumas pessoas pró-direitos LGBT usam esse argumento: que há de mais natural que a evolução? Apesar disso, eu, um defensor desses direitos, recuso visceralmente esse argumento. Por uma questão muito simples. Até acredito que seja um processo evolutivo qualquer (de memória, recordo-me de um estudo a dizer que as netas de lésbicas têm índices de fertilidade duas vezes superiores que a média das mulheres), mas não este. Porque é este argumento que leva às ideias mais perigosas e erradas acerca da homossexualidade. Se a homossexualidade se justificasse apenas pelo prazer sexual, era o alívio teórico de todas as bestas de duas patas que reclamam que a homossexualidade é igual à pedofilia ou à zoofilia. Para além do mais, surge agora o caso da homossexualidade noutros animais. É certo que são animais que tiveram processos evolutivos completamente díspares do nosso, mas se a homossexualidade se devesse à evolução pela maximização do prazer, esta não ocorreria em animais sem prazer sexual.

Por outro lado, não se deve descartar de todo a hipótese do prazer sexual como resultado de uma qualquer evolução. Mas não dizer que é o único pilar de desenvolvimento da homossexualidade enquanto resultado natural. A capacidade de um ser humano homossexual se apaixonar, ser capaz de ter uma relação monogâmica perfeitamente estável e de nutrir uma amizade profunda pelo seu companheiro (perdoem-me as feministas, mas na língua ainda sou muito conservador), são capacidades comuns aos heterossexuais e que não serão, porventura, o resultado directo do prazer sexual. Assim sendo, de onde vem a homossexualidade?

Repudio teórica e praticamente a expressão tão popular 'opção sexual'. É uma mentira descarada, infelizmente tão propagandeada pelos nossos fracassados, ignorantes e incompetentes media. E quem pensa de tal forma, usa tal expressão ou aceita o seu uso corrente é, ou estúpido, ou preguiçoso ou ignorante. Quando me falam nisso eu tenho o hábito de interrogar prontamente em que fase da vida do meu interlocutor é que ele tomou a opção de ser heterossexual. Ou quando é que lhe deram a escolher: "Olha, podes ser heterossexual, que é gostar do sexo oposto, ser homossexual, que é gostar do mesmo sexo que o teu, ou ser bissexual, que é gostar de ambos os sexos". Geralmente fico sem resposta. E ainda bem, porque arriscava-me a ridicularizar qualquer tentativa de argumentação que daí viesse. Porque raio é que os homossexuais, tendo a possibilidade de viver uma vida sem qualquer tipo de discriminação ou stress, escolheriam ser homossexuais? A não ser que se seja muito inconformista, não se trata de uma opção, mas sim de uma orientação natural da sexualidade. A questão é, qual a natureza dessa orientação natural? Genética? Ambiental? Neurológica? Aparentemente, todas as três hipóteses poderão estar correctas, de acordo com algumas experiências científicas, nomeadamente as que são efectuadas tendo como alcance alguma família mais próxima.

Nas suas experiências de 1993, o Dr. Dean Hamer encontrou um marcador genético no cromossoma X a que se deu o nome de Xq28. Acredita-se ser este o marcador responsável pela homossexualidade. Apesar de refutado já por três vezes, fazendo uma defesa deste argumento científico, o Dr. Hamer conseguiu defender com sucesso a sua descoberta, sustentada por observações de hereditariedade em que se verificou que 67% de irmãos homossexuais partilham o 'gene gay' e, ainda, que havia 13% mais de hipótese de um desses irmãos ser homossexual se um tio materno também o for. Apesar de experiências posteriores terem revelado estes testes inconclusivos, a confirmarem-se, é a prova mais sólida contra a alegada 'cura da homossexualidade' e outras diarreias mentais.

Também algumas diferenças estruturais e funcionais no cérebro de homossexuais em relação aos cérebros dos heterossexuais reforça ainda mais a ideia de uma naturalidade da homossexualidade. Ressalve-se, no entanto, que são diferenças estruturais e funcionais não em termos de deficiência (o que seria, no mínimo, absurdo), mas ao nível de diferenças estruturais que existem naturalmente entre um homem e uma mulher, entre dois homens, entre um jovem e um idoso...

Em algumas observações em relação à influência do meio, há a forte sugestão da importância do ambiente na determinação sexual de alguns indivíduos. Note-se a hipótese proposta por alguns cientistas de que um pai distante e uma maior afecção por parte da mãe é quase padrão de um homossexual masculino. 

Há ainda o resultado de um estudo realizado com gémeos, em 2008, que diz que a um nível primário há uma condicionante genética e hereditária e, depois, a uma maior escala estão os efeitos ambientais, que podem inclusive incluir condicionantes pré-natais.

É muito simples ser homofóbico. A sociedade, directa ou indirectamente, quase que nos encaminha nessa direcção. Mas não se trata de se ser contra ou de se ser a favor da homossexualidade. Eu não sou a favor nem contra pessoas com olhos verdes, nem a favor ou contra anões. A homossexualidade, como qualquer outra característica humana (e não humana), tem condicionantes naturais, que são impossíveis de prever ou de contrariar. Não se trata de um gosto ou de uma opção. Não se trata de se ser pró ou contra a homossexualidade. Tratam-se de seres humanos. Seres humanos a que calhou na vasta improbabilidade cósmica da genética e do ambiente gostarem de indivíduos do mesmo sexo. Trata-se, sim, de se ser pró ou contra os direitos da população LGBT. Trata-se de aceitar uma relação entre pessoas do mesmo sexo com todos os direitos de uma relação entre duas pessoas de sexo oposto, porque, na verdade, a única diferença é a genitália de um dos intervenientes da relação. Os heterossexuais são capazes de amar e os homossexuais também. Os heterossexuais são capazes de chegar a casa e falar do seu dia com a pessoa que amam e os homossexuais também. Os heterossexuais são capazes de ter uma relação estável e os homossexuais também. Os heterossexuais são capazes de manter todos os votos de um casamento e os homossexuais também. Os heterossexuais são capazes de cuidar de uma criança com todo o seu amor e os homossexuais também. A questão é se lhes é dada essa oportunidade. Por mim dou-a. Por mim, enquanto cidadão consciente e socialmente activo, exijo que sejam concedidos os mesmos direitos à comunidade LGBT que são concedidos às demais pessoas. Exijo que lhes seja reconhecido legalmente o direito de se amarem sem serem olhados de lado ou vítimas da mais vil e cruel demagogia. Exijo que as pessoas LGBT possam andar de mão dada ou dar um beijo na rua sem ter, ou rebarbados a olhar, excitados, ou rebarbados a olhar, reprovadores. Exijo que se reconheça a capacidade de parentalidade dos LGBT, com todas as suas capacidades e carinho pela criança que terão.

Mas é um longo e duro caminho que não se esgota com a aprovação de uma ou outra lei nos órgãos competentes. Esse é o início. O grande fim é mudar a mentalidade mesquinha e pequena que impera na sociedade. E começar a mudá-la, uma pessoa de cada vez. Não ter medo da discussão. Mas ser também capaz de reconhecer casos perdidos, até para bem do defensor dos direitos LGBT. Mas ser igualmente capaz de mandar à merda quem não merece uma discussão.

2011/05/22

Do PAN

O recém-criado Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) chateia-me um bocado. E não me chateia pelo facto de se perspectivarem assentos parlamentares para esse partido ou por ir roubar votos a outros sítios. Chateia-me, sobretudo, a própria ideologia do partido. Que, objectivamente, não existe. Passo a explicar-me.

Diz o PAN, pelos seus programas e manifestos ou pelos seus porta-vozes, que não se define como sendo de direita ou esquerda porque é uma noção ultrapassada. Isso, logo de início, é uma noção anti-política e impossível de se aceitar de boa consciência política e com opiniões saudáveis acerca da democracia. Há três posicionamentos-base no eixo dos xx de um quadrante político (deixando o eixo dos yy de parte): esquerda, centro e direita. É impossível com as ideologias existentes (e o PAN não foge a nenhuma delas, criando, até, um híbrido que acaba por resultar numa espécie de eco-capitalismo controlado) não cair em nenhuma categorização esquerda/direita/centro. E o PAN cai numa dessas categorias, no centro, pelas razões que irei apresentando mais à frente, à medida que vou continuando a explicar porque é que o PAN me chateia.
Em segundo lugar, posso dizer que o PAN me chateia por se arrogar de uma superioridade que não tem. Diz que é o único partido ético e de valores e não é verdade. Que valores? Os seus valores? Porque é que os seus valores são melhores que os meus, que os do António ou que os do imigrante legalizado que vota? Diz que é o partido que se recusa ao antropocentrismo (não num sentido religioso, mas num sentido político) e que diz que o Homem, os animais e a natureza estão, para eles, num mesmo plano. Por aí percebe-se quais os seus valores e, se numa primeira vista parecerão interessantes e correctos, rapidamente se chega à conclusão que são profundamente hipócritas. Todos eles - membros e militantes do PAN - moram em prédios ou em vivendas. Todos andam de carro ou de transportes públicos. A maioria até me arrisco a dizer que têm animais de estimação. Prédios que foram construídos através do derrube de milhões de hectares de floresta para o estabelecimento de complexos urbanísticos. Carros e transportes públicos que gastam recursos energéticos. Animais de estimação que dão a pata e que os fazem sentir bem quando estão com eles e que a maior parte nem foi adquirida com o nobre propósito de os salvar, mas porque naquela altura tinham condições financeiras para ter um. Não me venham com falsas nobrezas e arrogâncias que eu não mordo. Podem argumentar que é possível ter esse estilo de vida de um modo sustentável; mas isso não é de todo pôr os animais e a natureza ao mesmo nível que o Homem - isso é ter caprichos e tentar minimizar os danos. Calma, eu sou ambientalista e ecologista. Defendo outro tipo de ambientalismo e de ecologia, mas combato essa hipocrisia porque tem de ser combatida para evitar discursos demagógicos.
Em terceiro lugar, chateia-me imenso ser um partido de causas. Não é o primeiro em Portugal; de memória já houve pelo menos dois outros - o Partido da Solidariedade Nacional e o Movimento pelo Doente. Mas este, em particular, chateia-me particular e pessoalmente por fazer da sua única bandeira a natureza. Eu - como é sabido - aderi ao PEV (Partido Ecologista "Os Verdes"). Mas, ao passo que "Os Verdes" têm provas dadas noutros sectores da sociedade para além da ecologia, o PAN nada ou quase nada tem a dizer acerca de outros temas fracturantes e essenciais na sociedade, como na educação (onde o único que dizem é querer introduzir uma educação mais ética), na saúde (onde a única coisa que dizem é querer introduzir as medicinas alternativas no SNS), no investimento público (nada a apontar) ou na economia (onde dizem apenas que defendem uma economia de mercado controlada - e depois?). Eu também defendo o ambiente, os animais e também sou contra as touradas, mas isso não me chega. Isso também é "Os Verdes", mas muito mais.
Em quarto lugar, e talvez o que mais me chateia e irrita, afirmam-se como sendo o único verdadeiro partido ecologista em Portugal. Esse chateia-me imenso e, também, a um nível pessoal. "Os Verdes" têm um compromisso com o Partido Comunista Português e o PCP tem um compromisso com "Os Verdes", mas isso não é razão suficiente para tirar do mapa o único partido ecologista português actualmente no parlamento. É vasto o trabalho e iniciativas de "Os Verdes" na área do ambiente na Assembleia da República. Mas, se o PAN ainda se quiser arrogar de ser o único partido ecologista, deve-se relembrar que foi o Partido Popular Monárquico a trazer questões ecologistas para o parlamento e que esse partido ainda existe. Ou, apesar de ter sido criado depois de "Os Verdes", o Partido da Terra também está por cá e existe. O PAN não se pode nunca arrogar de ser o único partido ecologista em Portugal porque é uma mentira descarada.

Talvez seja por ser um partido recente que tem todos estes defeitos. Mas é impossível para mim, um homem com consciência política, não olhar para este partido e cegar perante os seus defeitos. É o terceiro partido de políticas verdes, o segundo eco-capitalista. É o primeiro a incluir as palavras "Animais" e "Natureza" no seu nome. Mas não é o primeiro a defender a natureza, nem o primeiro a defender os animais. É o primeiro a defender o vegetarianismo, mas não é o primeiro a defender um maior controle e uma maior dignificação dos animais criados para o consumo da sua carne.
Por tudo isto, pode-se dizer que é um partido do centro radical, eco-capitalista e um bocado demagógico.

2011/05/01

Porque não ser de esquerda

Mais do que "porque não ser de esquerda", antes, talvez a pergunta a ser feita seja "para quê ser de esquerda?". E é uma pergunta que trás um duplo sentido: para quê ser de esquerda se quem nos governa desde 1926, primeiro mandato de Salazar à frente da pasta das Finanças, é de direita, e, para quê ser de esquerda, ponto. Para o primeiro "para quê" a resposta é muito simples. Não faz sentido ser-se de esquerda porque a direita trás o conforto do que já é conhecido. PS, PSD e CDS-PP já são conhecidos em cargos governamentais e já se sabe o que se espera. Ainda que os direitos sociais diminuam, ainda que o país possa cair num poço por má gestão, ainda que se possa voltar a tempos remotos onde só quem tinha dinheiro é que tinha saúde e educação, ainda assim, antes o conforto da imutabilidade. Para quê, então, ser de esquerda, de todo? Para quê ter-se a confiança de que os nossos direitos são salvos, se vão ser espezinhados mais cedo ou mais tarde? Assim, não vale a pena, sequer, ter direitos!

O que nos leva ao próximo ponto. Porque não ser de esquerda. Ora, não vale a pena ser-se de esquerda se não se quiser ver o aparelho produtivo nacional a ser desenvolvido - só a direita é a garantia da sua destruição em prol das grandes multinacionais estrangeiras que comem a mão de obra barata em Portugal. Não vale a pena ser-se de esquerda se se quiser pertencer à minoria que mete milhões ao bolso sem pagar impostos - os banqueiros: só a direita garante transferências seguras para offshores e que os grandes accionistas continuem a ganhar os seus milhões sem serem justamente distribuídos pelos trabalhadores ou investidos na criação de novos postos de trabalho. Não vale a pena ser-se de esquerda se se quiser pagar cada vez mais pela educação dos vossos filhos e netos, sem qualquer apoio social ou garantia de gratuitidade da frequência nas escolas - só a direita consegue fazer com que o ensino seja tendencialmente pago, sem apoio social na compra de manuais e material escolar. Não vale a pena ser-se de esquerda se se acha que o Serviço Nacional de Saúde não tem condições nem precisa de ser melhorado, porque se tem dinheiro para se ir a um hospital particular - só a direita é que quer acabar com o SNS. Não vale a pena ser-se de esquerda quando não se é precário nem se quer que estes trabalhadores tenham direitos iguais e justos - só a direita quer mais precários para os patrões gastarem menos e explorarem mais. Não vale a pena ser-se de esquerda se não se quiser um diálogo activo e construtivo com os sindicatos na procura de melhores soluções para os trabalhadores do país - só a direita ignora consecutivamente os maiores representantes dos trabalhadores portugueses. Não vale a pena ser-se de esquerda quando não se quer que toda a gente, independentemente do género, nacionalidade, religião ou orientação sexual, tenha os mesmos direitos - só a direita consegue atropelar os direitos das mulheres, ser contra a imigração, a favor de uma educação e de uma sociedade cristãs e contra os direitos de lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e transexuais. Não vale a pena ser-se de esquerda se não se quiser que a riqueza seja bem distribuída entre todos, de forma igual - só a direita tem o poder de concentrar a riqueza numa pequena minoria, mas ser insensível aos milhões de pessoas no limiar da pobreza. Não vale a pena ser-se de esquerda se não há uma preocupação com a falta de investimento no emprego no nosso país - só a direita tem a estrondosa capacidade de olhar para o lado quando vê uma família com o casal desempregado a recorrer ao Banco Alimentar Contra a Fome. Não vale a pena ser-se de esquerda quando se quer ver um ambiente destruído e um desenvolvimento insustentável do ponto de vista ambiental - só a direita consegue não perder horas de sono com as árvores centenárias abatidas a favor de interesses económicos.

Não vale a pena ser de esquerda. Vota direita. Vota PS ou PSD ou CDS-PP.


MAS!
Se te preocupas com o nosso aparelho produtivo, se não pertences à minoria milionária, se te preocupas com o sistema público de ensino, se queres que o Serviço Nacional de Saúde seja de qualidade e público, se te preocupas com a situação dos precários no nosso país, se achas que a defesa dos trabalhadores passa por um diálogo eficaz com os sindicatos, se queres que toda a gente tenha os mesmos direitos, se achas que a riqueza em Portugal é mal distribuída, se defendes a criação de postos de trabalho ou se queres uma defesa activa do meio-ambiente, vale a pena ser de esquerda! Vota esquerda! Vota em quem te defende! Vota em quem está do teu lado nas lutas laborais! Vota em quem te ajuda todos os dias no Parlamento! Vota em quem se preocupa contigo, jovem precário, mulher ou gay! Vota em quem defende o planeta, único que temos! Vota na esquerda se gritas "BASTA"! Mas vota. E dia 5 de Junho vota e não te esqueças de quem te defende sempre e desde sempre te defendeu. Vota CDU.

2011/04/18

De "Nobrezas"

No fundo, as críticas que eu tenho a fazer não são novas. Escrevi a 14 de Janeiro deste mesmo ano, a propósito do candidato presidencial Dr. Fernando Nobre, que o senhor era, enquanto candidato, "um puto mal-comportado". Acabei por não desenvolver muito essa ideia, mas o que tinha em mente nessa altura prendia-se basicamente com o facto de o Dr. Fernando Nobre, esse apartidário, esse apolítico, esse crítico das mais básicas e das mais importantes instituições do nosso sistema democrático, os partidos, já tinha sido mandatário de tudo e mais umas botas, do Bloco de Esquerda ao Partido Social-Democrata. De todos os partidos com assento parlamentar, aliás, directa ou indirectamente, o Dr. Fernando Nobre só não foi mandatário de nada pelo CDS, pelo PEV e pelo PCP. O Dr. Fernando Nobre é um puto mal-comportado da política porque não sabe a quantas anda. Tão depressa é de esquerda, como de seguida é de direita, como de seguida rejeita isso tudo e o seu passado político para se declarar como independente, como de seguida é candidato a deputado (e a Presidente da Assembleia da República) pelo PSD, como ainda antes de ser eleito diz que é um homem de esquerda e provoca uma valente enxaqueca a todos os que o tentam analisar politicamente, este vosso amigo incluído. Não obstante, tentá-lo-ei.

O Dr. Fernando Nobre, animal político, é uma espécie demagógica, populista, eleitoralista, portadora de Alzheimer e sedenta de poder. É uma espécie híbrida, não alargada no espectro político como se poderia pensar, mas estreita e indecisa, ora à esquerda, ora à direita.

O Dr. Fernando Nobre prometia, enquanto candidato presidencial, as coisas mais demagógicas e intolerantes em democracia que se podiam imaginar (e que podem ler no link acima, no meu post sobre esse assunto). Agora, enquanto candidato pelo PSD, promete coisas radicalmente diferentes, nomeadamente a privatização de sectores estratégicos do Estado, fundamentais para a constituição de riqueza. Claro que mais ficará de fora quando se souber o programa do PSD, até agora envolvido em mistério, em parte por causa do tempo que ainda falta para as eleições, em parte por causa de todas as contradições ideológicas de que o partido sofre.

O Dr. Fernando Nobre sabia, mais grave ainda, que 90% das coisas que prometia se fosse eleito Presidente da República não seriam viáveis e eram próprias de alguém anti-democrático. Mais ainda, numa ânsia de ganhar a simpatia dos portugueses, não hesitou em sacar da carta do seu passado. Acusou até, em debate, Francisco Lopes, candidato apoiado pelo PCP e pelo PEV (e, informalmente, pela Ruptura/FER, mas o BE não deve gostar muito que se fale nisso), enquanto deputado, de nunca ter criado nenhum emprego em Portugal, ao passo que ele, enquanto fundador e Presidente da AMI já tinha criado uns quantos mais. Abstraindo-nos do facto de a AMI funcionar também muito à base do voluntariado, seguindo a lógica do Dr. Fernando Nobre, então deveria ser o Belmiro de Azevedo ou o Pinto Balsemão o Presidente da República. E, já agora, porque não transformar isto numa plutocracia formal e inserir isso na constituição? Já agora havia mais transparência da parte de quem ocupa, geralmente, os lugares de poder.

Mas dizia o Dr. Nobre isto tudo porquê? Porque queria ganhar votos. Tão simples como isto. Ele sabia que não ia poder cumprir nada do que foi prometendo ao longo da campanha eleitoral. Ele apenas queria ganhar as eleições, só porque sim. Só porque queria ser Presidente da República.

E tem sede de poder. Não ficando satisfeito com uma derrota nas Presidenciais, logo, derrotado na corrida para primeira figura do Estado, entra na corrida para segunda figura do Estado e vice-Presidente da República. Que é, já agora, quem mais ganha na Assembleia da República.

Em analogia, é a típica criança que promete aos pais fazer os trabalhos de casa, sabendo que não prestou atenção à aula e não sabe um corno da matéria, pede um chupa daqueles redondos e bem grandes numa loja de doces, não o ganha, faz birra, diz que não gosta dos pais, mas logo está a bajular a mãe para que lhe compre antes um saquinho de gomas.

Não me surpreendeu, esta atitude do Dr. Fernando Nobre. Foi-me indiferente. Não é nada de que eu, ao contrário de muita gente, não estivesse à espera. Cheguei a comentá-lo com pessoas próximas e a escrever sobre isso num comentário num blogue pró-Nobre (ao que fui completamente insultado e linchado em praça pública). Sinceramente, pior que alguns partidos políticos, só alguns políticos. Não são os partidos, num país com um regime como o nosso, que são uma ameaça à democracia - são os plutocratas, demagogos, eleitoralistas, populistas, proto-fascistas como o é o Dr. Fernando Nobre. E se alguém quiser que eu não fale, só com um tiro na cabeça é que eu me calo.

2011/03/24

Da rejeição do PEC4 e algumas consequências

O malfadado PEC4 estava destinado ao falhanço, logo desde a primeira hora. Há várias ilações a tirar desse falhanço e uma consequência que já aconteceu. A consequência, óbvia que é, tratou-se da demissão do Primeiro-Ministro José Sócrates. A isso já se pode considerar uma pequena vitória. Mas o que não se compreende muito bem na opinião pública é que a demissão de José Sócrates foi apenas e tão somente a consequência da reprovação do PEC4 que - da esquerda à direita - foi considerado como sendo mau para o país. Apenas o PS não percebeu isso.
A ilação principal que se pode tirar da reprovação do PEC4 é que nem o PEC original, do ano passado, deveria ter sido aprovado. Porque as medidas do PEC4 são substancialmente complementares às medidas dos sucessivos PEC's e Orçamento de Estado. Não vou querer desculpabilizar o PS, mas um partido que vota favoravelmente ou que se abstém - PSD - votando contra, de seguida, a medidas complementares e previsíveis, é um partido incoerente e que perdeu o seu próprio rumo num mar de oportunismo. O oportunismo e o tacitismo político do PSD foi mais que evidente. Os outros partidos - à excepção do PS - votaram coerentemente contra, como, aliás, já o tinham feito antes nos outros PEC's e com o OE.
Outra ilação que se pode tirar é a de que o Governo não tinha a margem para a prepotência com que se passeava por Bruxelas. O Governo era um Governo de um partido com maioria relativa na Assembleia da República e comportava-se como se ainda estivesse na anterior legislatura da maldita maioria absoluta. Na representação externa do país, nomeadamente em eventos da competência da União Europeia, o Governo agia, como agiu no PEC4, de costas voltadas para o seu próprio país mas, ao mesmo tempo, de rabo e calças baixas para a Alemanha, a França e a restante Europa riquinha.
Uma terceira ilação que se pode tirar é a de que o PEC4 não se viu não aprovado. Viu-se rejeitado. Essa rejeição de um Pacto de Estabilidade e Crescimento, no quadro interno, significa apenas que a austeridade não vai continuar com mais medidas para fazer crescer a economia à custa do povo, uns mais que outros. No entanto, no quadro europeu, significa que a Alemanha e a França vão ter que começar a fazer o trabalho de casa. Porque é que as medidas de austeridade portuguesas são tão aclamadas no exterior apesar de obviamente gravosas, não só económica, mas socialmente? Porque lá fora sabem que enquanto for a raia miúda a fazer os sacrifícios e a caminhar na corda bamba, os grandes e fortes têm oportunidades de crescimento sem ser preciso mexer uma palha. Explico, mesmo não sendo economista e de essa área ser quase oposta à minha: o dinheiro não é infinito. Há um número finito de dinheiro que viaja em condições de dívida ou de troca. Ora se os pequenos se endividam e se os sucessivos PEC's-maquilhagem não servem para nada, os grandes emprestam dinheiro sob a forma de dívida. "Ah, que gesto tão bonito!" pensarão alguns, ingenuamente. Não o é. A dívida vem acompanhada de juros, por norma altos, que são um pequeno extra que se tem que pagar para além do dinheiro que foi emprestado. E como é que se faz dinheiro para pagar o que foi emprestado? Produzindo e vendendo riqueza. A tal troca. Troca essa que países grandes dominam e não querem deixar de dominar, preferindo emprestar uns patacos, ou ver entidades privadas a emprestar (os chamados de mercados), vendo países pequenos a afundar-se cada vez mais a troco do crescimento dos grandes. Ora, isto para chegar onde? Para chegar à ilação de que, com esta chamada "crise" política (que não passa de um exercício legítimo de democracia e do poder da Assembleia e, proximamente, provavelmente, do povo), com a impossibilidade de pôr em prática o PEC4 e com a impossibilidade da entrada do FMI em Portugal (pela inexistência de um Governo de facto), os grandalhões vão ficar chateados. Consequências da chatice deles? Uma delas, a mais drástica e definitiva, a exclusão de Portugal da Zona Euro. Essa seria a maior de todas, já que o Tratado de Lisboa não permite a expulsão de nenhum país da "União" Europeia propriamente dita.

Ora, mas escrevia há pouco que a consequência da rejeição do PEC4 fora a demissão do Primeiro-Ministro. E, claro, há consequências a tirar disso também. Em primeiro lugar, embora quase certo que aconteça, a realização de novas eleições legislativas não é certa. Há todo um procedimento legal e constitucional que é preciso cumprir, nomeadamente que sejam ouvidos todos os partidos com assento parlamentar para verificar se há condições para a formação de um novo Governo, designadamente um Governo de coligação, maioritário na Assembleia da República. De seguida, se isso for rejeitado, o Presidente tem de convocar o Conselho de Estado e novamente os partidos políticos para proceder à dissolução do Parlamento e aceitação oficial da demissão do Primeiro-Ministro. Consequentemente terá de convocar eleições para, no mínimo, cinquenta e cinco dias depois da dissolução do Parlamento. Jorge Sampaio, das duas vezes que precisou de usar esse poder em circunstâncias semelhantes, demorou 10 dias a fazer tudo certinho e como manda a lei. Portanto, há ainda a possibilidade de não serem precisas novas eleições, embora esteja em crer que isso seja inevitável. No entanto, caso não as haja, há quatro grandes cenários possíveis, todos eles mudando de Primeiro-Ministro, do mais plausível para o mais risível: o primeiro é o de um novo Bloco Central, PS e PSD; o segundo é o de um Governo PS com o CDS-PP; o terceiro é uma Frente de Esquerda, com PS, PCP, PEV e BE; o quarto é um Governo de Salvação Nacional que poderia tanto ser PS, PSD e CDS, como PSD, CDS e uma ou mais das forças de esquerda, à excepção do PS.
Em segundo lugar, outra consequência que se pode tirar da rejeição do PEC4 é a de que a democracia portuguesa está em bom funcionamento. Rejeitou-se uma medida governamental e o Chefe de Governo demite-se. Dois casos se deixam mostrar de seguida: os partidos que dizem que era inevitável porque as políticas do Governo já foram longe demais; e os partidos que dizem que a crise política só desfavorece o país. Para esses cito a Dra. Manuela Ferreira Leite: "então suspenda-se a democracia durante seis meses, ponha-se tudo em ordem e volte-se à democracia quando esse tempo passar". O PS (vai daí também o PSD) já demonstrou ter tiques ditatoriais e de sede de poder. Mas chegar ao ponto de dizer que a crise política e a realização de novas eleições é algo de mau para o país vai para além do tolerável e roça o fascista. Roçar o fascista esse que já o Prof. Cavaco Silva tinha roçado na campanha para as últimas presidenciais quando disse que não podia haver segunda volta porque era um gasto de dinheiro para lá do comportável. Mas, não obstante alguns tiques fascistas e ditatoriais de alguma esfera política portuguesa, a nossa democracia está bem oleada e a funcionar que é um mimo. As eleições não são para ser de fim de mandato - são para ser quando necessário ao bom funcionamento dos órgãos de soberania e tantas quanto possível. São precisas e que se lixem as opiniões (que não passam disso, porra!) de mercados ou de merkels da praxe.
Uma terceira conclusão da demissão do Primeiro-Ministro em conclusão da rejeição do PEC4 é que os deputados, a maioria, soube ouvir os sinais e a população portuguesa que deu voz ao seu descontentamento em duas grandiosas manifestações, de 12 e 19 de Março, com centenas de milhares de pessoas a saírem às ruas mostrar que não querem PEC's que sejam penalizadores para os trabalhadores, os jovens, os desempregados e os reformados. Apesar de algumas reservas quanto à motivação que uma ou outra força política, regozijo-me com os meus órgãos de soberania enquanto português e pelo facto de, por uma vez, a maioria ter ouvido as vozes que mais precisam de ser ouvidas - as de quem pôs os deputados onde eles estão, a voz do povo.

Para terminar apenas um pequeno apelo. O PS e o PSD são apenas distinguidos por uma letra. O CDS-PP certamente (já deu mostras disso) irá aliar-se ao PSD, se não durante as próximas eleições, então num cenário pós-eleitoral. E a direita não é solução. O capitalismo e o receio dos mercados não são a solução. O neo-liberalismo e a veneração do patrão não são a solução. A solução passa pela esquerda. Só um reforço da esquerda e um aumento da sua representatividade na Assembleia da República podem tirar o país da crise em que se encontra. Só a esquerda tem a coragem de fazer essa coisa difícil que é pôr os trabalhadores e o povo à frente do poder económico e da banca. Só a esquerda é capaz de dizer basta à situação pornográfica que se vive no que toca à taxação dos lucros da banca. Só a esquerda é capaz de ver (será assim tão difícil?) que o crescimento económico passa pela produção de riqueza e que a produção de riqueza passa pelo investimento público e criação de novos postos de trabalho. Só a esquerda é capaz de ver o que se passa com as linhas ferroviárias que tanto mal fazem em não estar em funcionamento - ambiental incluído. Só a esquerda garante direitos sociais para toda a população, por igual e sem discriminação. Só a esquerda precisa do povo português nas próximas eleições porque o povo português precisa da esquerda na próxima legislatura. Votar CDU ou BE não é igual. Pessoalmente voto CDU, voto no socialismo, na igualdade e na defesa ambiental. Voto numa coligação da qual não me arrependi de votar e que nunca me deixou ficar mal. Voto num futuro melhor. Voto à esquerda. Voto esquerda.

2011/02/15

Da moção de censura do Bloco de Esquerda e não só

O Bloco de Esquerda, no domingo, dia 6 de Fevereiro, na voz do seu líder Francisco Louçã, dizia, passo a citar (com respectivo link):
Passado pouco tempo, quinta-feira passada, dia 10 de Fevereiro, Francisco Louçã, em pleno debate quinzenal com o Primeiro-Ministro, anuncia a apresentação de uma moção de censura ao Governo. Ficam então os bloquistas (que outro nome para eles?) muito chateados - como já tive o prazer de verificar nos mais diversos sítios - quando são acusados de incoerentes (novamente, que outro nome?).

O Bloco de Esquerda, em toda a sua curta história (curta por agora, entenda-se, "I know not what tomorrow will bring"), quer fazer da Assembleia da República o palco dos seus despiques quasi-pessoais. Fundou-se, ou fundiu-se, fica ao critério de cada um, para combater esse grande flagelo de Portugal que era, imagine-se, o PCP e as políticas de direita. Sim, o caríssimo leitor fez o que lhe competia melhor que ninguém e leu bem o que eu disse: roubar votos ao PCP e combater as políticas de direita PS/PSD (com ou sem CDS-PP). Se o segundo objectivo alguma coisa terá de nobre - raios, todos os partidos e todas as pessoas com um mínimo de sensatez o veem! -, já o primeiro não tem ponta por onde se lhe pegue. Não digo isto com base em qualquer documento, vídeo, áudio ou escrito, digo-o apenas com base na génese dessa imensa plata-em-forma de teia que é o B.E.: dos três pequenos-grandes partidos que formaram originalmente o Bloco, de dois deles faziam parte da sua génese dissidentes do PCP (e, já agora, de outros partidos políticos, como o MRPP, PS, MDP ou Plataforma de Esquerda). Ora, é um exercício simples. Se eu saio de um partido político é porque não gosto dele. Se da saída desse partido político resultar a fundação de outro, é claro que o meu objectivo é deitar abaixo o que me pariu originalmente. Perdoem a lição de história partidária do Bloco de Esquerda, mas era necessária. Mais não seja para massajar o meu ego, de tão bonitos que são os meus conhecimentos de política.

Freud certamente explicará esta obsessão do B.E. com o PCP. O Bloco de Esquerda, novinho que é, estará, politicamente falando (ou não), na fase fálica. Está com aquilo a que alguns psicanalistas chamam de Complexo de Édipo - um ódio pelo pai (o PCP) e um amor cego pela mãe (aqui, na analogia, esta parte não interessa muito, até porque não sei quem poderá ser a mãe - deixo a sugestão repartida pelo Francisco Louçã e Luís Fazenda). Porque é inegável que o PCP, voluntária ou involuntariamente, seja o pai do Bloco de Esquerda. É-o, na medida em que dois terços da plataforma mais importante do B.E. é constituida, sobretudo, por ex-comunistas - Política XXI e UDP (com o PSR aqui à parte). Talvez encontre uma mãe ao Bloco... Uma mãe um bocado bizarra, mas que me parece satisfazer todas as condições de "amor" que o B.E. nutre. O poder político. O Bloco tem amor pelo poder e deseja roubar esse poder à esquerda ao PCP. Inconscientemente, claro. Porque não são assim tão idiotas. O PCP é o avô da política portuguesa e um dos pais da democracia de Abril. E toda a gente respeita os avós. Só os idiotas-100% é que não o fazem.

Bem, isto tudo para chegar ao meu ponto de vista sobre a moção de censura bloquista (a sério, arranjem-me outro nome para os gajos). O PCP, pela voz do seu secretário-geral Jerónimo de Sousa, numa entrevista à Antena 1 (se não estou em erro), admitiu apresentar e/ou viabilizar uma moção de censura que derrubasse este Governo. Logo o Bloco correu e atropelou-se para dizer o que citei em cima. Para logo correr e atropelar-se mais um bocadinho e dizer que vai apresentar ele próprio uma moção de censura, depois de desafiar José Sócrates a apresentar uma moção de confiança à Assembleia da República. O que é que pode ser entendido disto? Numa lógica de conseguir o amor do eleitorado à esquerda, faz um desvio para conseguir chegar à meta antes do papá comunista e vê agitar-se a bandeira axadrezada à sua frente. Pensando, creio, quase de seguida, "o que raio é que fomos nós fazer?". Assim, pela pontada de bom-senso que lhe foi atravessada mesmo antes de cruzar a meta, inviabilizou a sua própria moção de censura, contradizendo-se - outra vez -, criticando o PSD ao mesmo tempo que critica o Governo. No entanto, nessa altura, ainda se tremia na Rua da Palma. Porque, repare-se, todas as sondagens dão vantagem ao PSD, que tem maioria absoluta se coligado com o CDS. Nunca a "mãe" do B.E. o perdoaria depois do apoio a Manuel Alegre e de uma hipotética eleição maioritária PSD/CDS. Ou voltavam com a moção de censura atrás (e eram acusados de propaganda populista e demagógica) ou esperavam que algum dos partidos votasse contra ao lado do PS ou se abstivesse (poupando-se a uma humilhação ainda maior) ou arriscavam-se a tornar-se num novo PRD de 1985 em pleno ano de 2011. A salvação acabou por lhes surgir hoje, à direita, pela voz de Paulo Portas, que afirmou que o CDS se vai abster na moção de Louçã/Fazenda. Suspiraram de alívio os dirigentes do Bloco de Esquerda. E só assim cruzaram a meta. Apenas para perceberem que o PSD já lá estava, relaxado. E o CDS, a gozar. E o PS, suado. E o PEV, a contemplar o mundo. E o PCP, o primeiro a chegar, de braço dado. Pai e mãe, felizes.

2011/02/03

Da redução do número de deputados

Já aqui abordei este assunto, a propósito do post a criticar algumas das medidas propostas pelo candidato à Presidência da República Dr. Fernando Nobre. O que disse nesse post, correndo o risco de me repetir, apesar de ser a propósito de uma redução para cem deputados, continua a ser o meu ponto de vista face a essa questão. Continuo a considerar uma medida populista, demagógica e eleitoralista, desta feita do PSD e do Ministro dos Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão. A redução do número de deputados na Assembleia da República para cento e oitenta (actual proposta, que não se distancia assim tanto da proposta do Dr. Fernando Nobre) só tem dois beneficiários: o PS e o PSD. Em contrapartida, tem como prejudicados a democracia e o povo português. A função de um deputado é, não obstante o círculo porque é eleito, servir o povo português, fiscalizar o Governo e "fazer" leis. Se por um lado é verdade que a concentração nas tarefas essenciais do quotidiano de um deputado talvez fosse maior, por outro é também verdade que os ditos "pequenos partidos", já são o que o seu adjectivo (mal ou bem) qualifica - "pequenos". São esses partidos (PCP, PEV, BE e CDS-PP) aqueles que menos falham ao eleitorado que os elege, uns à esquerda, o outro à direita (mas que assume o que é, ao contrário de outros). Se se extinguem cinquenta lugares na Assembleia da República, perde-se a representatividade plural que actualmente existe e que já foi perdida aquando da redução de duzentos e cinquenta para duzentos e trinta. Não se perde apenas isso, mas também se perde o contacto com o eleitorado. Novamente, quem eu vejo no verdadeiro contacto com as populações são o PCP, o PEV e o CDS-PP. Nunca vi o PS nem o PSD a perguntar em escolas, fábricas e empresas como vão as coisas. São esses mesmos partidos que, em tendo mais representantes de mais círculos eleitorais, deveriam contactar a população e representá-la efectivamente, algo que parece já terem esquecido ser essa a sua função máxima de deputado. No entanto, repito, uma redução para cento e oitenta do número de deputados eleitos apenas iria prejudicar a representatividade, nomeadamente esquerda, na Assembleia da República. O PS e o PSD continuariam com os seus deputados no seu lugar, com menos, claro está, mas aumentariam antidemocraticamente o seu poder na representatividade do povo português, logo esses que são quem menos o representa!

A solução não passa pela redução do número de deputados em cinquenta. Não é retirando pluralidade democrática na Assembleia da República que os problemas nacionais se resolvem, é aumentando essa pluralidade. É havendo um equilíbrio de poderes entre todos os partidos com assento parlamentar, que os problemas se resolvem. É aumentando a votação nos pequenos partidos, sejam eles de que quadrante político forem, que os cidadãos, todos eles, de esquerda ou direita, se vêm representados decentemente. Porque, como já disse, é o PCP, o PEV, o BE e o CDS-PP, cada qual à sua maneira, quem cumpre mais o que promete. Não é aumentando o poder do PS/PSD que se sai do abismo onde nos metemos por inúmeras políticas erradas. Em nada esta medida, repito, demagógica e populista, levaria a um bem-estar em Portugal. É só através do mudar de mentalidades, não só de alguns deputados que bem precisam, mas também da população em geral, que o país pode começar a escalar o buraco onde se encontra.

Uma solução quiçá semelhante à da redução de deputados prende-se com outra questão de fundo: a regionalização. Não apenas a regionalização nos moldes em que foi a referendo em 1998, com a criação de Juntas Regionais e Assembleias Regionais, mas também através da representação dessas mesmas regiões directamente na Assembleia da República, através da criação do cargo de Deputados Regionais, que se comprometessem unicamente a levar a discussão assuntos relacionados com a sua região em particular ou com as regiões e o processo de regionalização em geral. Seria, assim, a meu ver aceitável a redução para cento e oitenta deputados, com cinquenta lugares reservados a oito regiões administrativas mais as regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Cinco deputados em cada região, eleitos em listas próprias para o efeito nas eleições regionais ou legislativas.

Outra solução, também prendendo-se com a regionalização, que já escrevi aqui, prende-se com a semelhança entre o governo e os órgãos autárquicos. O governo, no meu ponto de vista, não sofre qualquer tipo de escrutínio popular. Alguns argumentarão que se trata de não um mas dois escrutínios a funcionar em simultâneo - o para a Presidência da República e o para a Assembleia da República. No entanto, analisando a fundo, verifica-se que um nomeia e o outro ausculta o governo. O governo, em si, não é eleito. Um sistema onde o governo fosse eleito directamente pelo povo, onde houvesse um número definido de ministros, onde diversas forças políticas estivessem representadas, à semelhança de uma Câmara Municipal com os vereadores era, para mim, o ideal.

Portanto, para terminar, para mim o sistema actual não é o melhor. Mas o que é proposto da única redução de deputados quase "só porque sim", é o mais incorrecto dos caminhos. O mais correcto, nas eleições legislativas, é serem dados três boletins ao eleitor - um de governo, um de representação regional e um de representação parlamentar. É um ponto de vista, vale o que vale, mas creio ser tão válido como outros que por aí pululam.

2011/02/02

De escolhas de vida

Disse aqui há tempos que uma pessoa tinha que escolher um combate para a vida. Considerava - e ainda considero - que só se pode lutar acerrimamente por uma coisa, não por muitas. As minhas lutas de vida prendem-se com coisas simples, que qualquer pessoa tem ao longo da vida. Claro, não falo de lutas pessoais como o amor, a criação e manutenção de uma família ou viagens que quero muito fazer. Não, essas terei um dia oportunidade de lutar por elas, à parte. Falo das lutas que cada um de nós trava - ou devia travar - para um bem comum. Política, religião, justiça social, justiça simplesmente, ambiente, são inúmeros os temas nos quais uma pessoa se pode debruçar. Eu, em parte com a ajuda deste blogue, mas não só, já decidi que luta vou travar. Convido quem me lê a avaliar, como eu fiz, durante uns meses (no meu caso foram cerca de sete...), as suas escolhas e convicções sociais e debruçar-se e lutar por uma delas. Vale a pena.

2011/01/30

Escrevo este post com bastante sono, sem saber bem o que escrever nem porque escrever. Isto é das coisas mais privadas que já escrevi aqui e, se uma pessoa desse lado souber decifrar é porque me conhece mesmo muito bem. Lamento, aos restantes, este post não preencher as espectativas dos anteriores, nem ser de política ou crítica social. Lamento se soar lamechas ou se, de qualquer outra forma, fugir ao tom que costuma caracterizar a minha escrita neste blogue. Lamento os erros ortográficos (ressalvando que ainda escrevo sem o novo acordo), provavelmente derivados do sono. Lamento fugir à "fórmula" de título que tem caracterizado este blogue desde há meses para cá e não escrever nenhum. Enfim, lamento tudo o que esteja ausente ou presente e que possa desfigurar o que eu costumo escrever, como costumo escrever. Obrigado, desde já, por me lerem.

Quando se deixa uma morte de uma barata a meio, pendurada, interrompida, o mais certo é que ela volte. Segundos, minutos ou horas depois, lá temos nós uma barata novamente de roda dos nossos chinelos a pedir que lhe ponhamos os pés em cima. O mesmo acontece com as chamadas paixonetas. Se não morrem na altura devida, lá regressam, sorrateiras e matreiras, como quem não quer a coisa. E se não damos conta disso, elas crescem e evoluem. Algumas crescem e evoluem tanto que nos cobrem de alto a baixo, espalham-se cada vez mais e transformam-se em paixões, umas grandes, outras pequenas. Claro que a outra escala temporal: podem ser dias, meses ou anos, e não segundos, minutos ou horas.

Há uns meses atrás tive uma dessas paixonetas. O parágrafo anterior não teria sentido se não me tivesse acontecido o que descrevi, por isso a missa já vai pela metade, perdoem-me a falta de ateísmo agora mesmo. Acontece que me vejo numa situação complicada. Já tinha tudo passado - pensava eu -, e já me tinha conformado com o mundo quando dou por mim embrulhado numa paixão imensa, gigante, com vontade de me devorar inteiro. E, claro, não fosse o mundo cruel como é, ainda por cima, estou a crer, uma paixão impossível. Tinha prometido a mim mesmo que não voltaria a acontecer, mas aconteceu. Consigo controlar-me quando estou ao pé dessa pessoa, claro, nem poderia ser de outra forma, mas os meus sentimentos são incontroláveis. Não consigo controlar o meu ritmo cardíaco acelerado, o meu corar incessante, o meu nervosismo insano, o meu rir só porque sim, a minha vontade de beijar. Não consigo parar de pensar, dia e noite, acordado ou a dormir, no que poderia acontecer se tanta coisa fosse diferente. Se a impossibilidade gigantesca que nos separa não existisse. Se eu não me controlasse. Se eu conseguisse parar de estar apaixonado. Como seria a minha vida? O que aconteceria? Como estaríamos os dois se alguma dessas coisas acontecesse? Isto assombra-me e fascina-me e desola-me. Quanto mais penso nisso, mais me apercebo que é impossível... E, no entanto não perco a paixão, não a deixo sozinha algures num café ou num banco de jardim, só porque me esqueci...

Novamente, perdoai-me a fuga aos hábitos. Mas precisava mesmo de escrever isto tudo.

2011/01/23

Dos resultados das presidenciais

Parece que Cavaco Silva (desta vez sem epítetos para quem não me faz comichão) ganhou as presidenciais. A esperança de uma segunda volta e ganhar um outro candidato desvaneceu-se pouco passava das 20h00 mas, ao mesmo tempo, foi o jubilo nas empresas de sondagem. Ganhou à primeira volta numas eleições, fossem elas noutro país mais decente, Cavaco Silva teria desistido por suspeitas de corrupção. Fossem estas eleições noutro país e, à beira de um mais que evidente governo PSD que se avizinha (talvez com o CDS), os portugueses optaram pelo confortável da resignação à mudança e votaram Cavaco Silva, ou não votaram. Os portugueses que, nestas presidenciais se abstiveram, votaram branco ou nulo, só devem esperar, da minha parte, um profundo "obrigado". Obrigado por não contribuirem para rigorosamente nada. Obrigado por ajudarem à reeleição do pior Presidente da República desde o 25 de Abril. Obrigado por participarem em greves, manifestações e protestarem, todos os dias, mais não seja no conforto do lar (onde escolheram ficar) em frente à bosta da televisão, e depois, na altura certa, não mexerem uma palha para que isto mude. Obrigado por terem resolvido ficar em casa ou ido ao shopping em vez de perderem meia-hora do vosso precioso dia a ir votar num candidato decente. Obrigado por serem tugas.

Porque não foi com os votos de todos que Cavaco Silva ganhou. Não foi com o meu e, provavelmente, não o terá sido com o de muita boa gente, Portugueses com letra grande. Por isso, digo-o, Cavaco Silva foi reeleito Presidente, da República Portuguesa e dos tugas, mas não foi reeleito meu Presidente. Não aceito um Presidente como Cavaco Silva e eu, enquanto Português, recuso-me a aceitar um Presidente que, num futuro não tão distante como o que se avizinha, se vai aliar ao governo e nos vai presentear com Orçamentos de Estado penalizadores, não só do povo, como também da sua amada economia; vai, juntamente com o governo, abolir a pouca produção nacional e privatizar todos os lucros que podem ajudar Portugal a sair da crise; vai, juntamente com o governo, penalizar quem menos tem e dar aos seus compinchas do BPN e afins todo o dinheiro que nos poderia salvar... O país viu a merda no seu caminho e escolheu pisá-la com os seus melhores sapatos. Mas não foi com o meu voto. Estou de consciência tranquila. E, por isso, Cavaco Silva não é o meu Presidente - é só o monte de esterco que ocupa o Palácio de Belém.

2011/01/21

De moralidades corruptas

O Prof. Cavaco Silva é, além de outras coisas, moralmente corrupto. Sim, até o pode ser de outras formas. Sim, pode estar envolvido até à ponta dos cabelos no caso BPN/SLN. Mas aquilo que me preocupa mesmo é a sua moralidade estar podre, corrompida e ser, verdadeiramente, uma moral imoral.

Não vou tão atrás como alguns vão, como ao caso BPN/SLN, ou certas e determinadas objecções de consciência na promulgação de leis. Não, vou pegar em algo tão simples como o desespero do candidato para ser reeleito. O seu desespero é tanto que o candidato sabe que se for a uma segunda volta perde. O seu desespero é tanto que o candidato Prof. Cavaco Silva invoca razões económicas para não se ir a uma segunda volta! O Prof. Cavaco Silva arroga-se e pavoneia-se de ser o único candidato com experiência para ocupar a cadeira em Belém. Pois, mas se lhe vale a experiência dos últimos cinco anos, o Prof. Cavaco Silva devia era estar caladinho. O Prof. Cavaco Silva disse que não ia afixar nenhum cartaz para evitar gastos desnecessários, mas depois vemos que é o candidato que mais previa gastar na campanha eleitoral.

O Prof. Cavaco Silva fala muito de economia. Aliás, a grande propaganda da sua eleição em 2006 foi que, com ele na Presidência, havia o garante e a experiência de um economista para evitar que Portugal fosse ao fundo. Pois, Portugal foi ao fundo e, então, das duas uma, ou ele é um mau economista (o que até nem acredito muito, porque deu aulas no ensino superior durante anos demais para poder ser considerado mau) ou um mentiroso. Estou mais inclinado para a segunda hipótese. O Prof. Cavaco Silva é de direita e isso basta para perceber o seu palavreado - o choque e a indignação que o candidato tem por a sua mulher receber uma pensão mísera de 800€, com ele a receber 10 mil mensais. Então e as pessoas que recebem 400€ e menos, muito menos, sejam eles reformados, pensionistas ou jovens no primeiro emprego, precário quase sempre? Com esses não se preocupa o candidato. Da mesma maneira que o candidato Prof. Cavaco Silva não se preocupa em esclarecer as dúvidas suscitadas ao longo da campanha. Dizem, os restantes candidatos, que querem ver as coisas esclarecidas e o candidato da direita considera que é um ataque pessoal. O Prof. Cavaco Silva não convive bem com a crítica só que, desta vez, não tem bolo rei na boca.

No entanto, embora já tenha referido neste mesmo texto ao de leve, considero que a coisa pior que o candidato Prof. Cavaco Silva disse nestas dias de campanha se prendeu com os custos que uma segunda volta teria para o país. Então mas isto é o quê? Se o candidato Prof. Cavaco Silva quer andar de rabo para o ar para os mercados a levar o que lhe convém, eu não quero. E sei que comigo está a maioria dos portugueses! O Prof. Cavaco Silva é um tiranozeco fascista, plutocrata e, pior ainda, cleptocrata. Acha que não deve haver uma segunda volta, um direito democrático absoluto e inabalável, porque os mercados, esses papões, não iam gostar. É uma ditadura. Citando Salgueiro Maia - "Há vários tipos de estado: os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegámos." Ao que proponho, agora eu, dia 23 de Janeiro, não votem Aníbal António Cavaco Silva. Acabemos, todos juntos, com o estado a que isto chegou!

2011/01/19

De cães como nós

O Dr. Manuel Alegre é difícil de explicar. Não é só difícil de explicar pela sua aparente bipolaridade política ao ser apoiado por dois partidos tão inimigos como são o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda - dos maiores críticos do governo, quase a cair para o "dizer mal só porque sim" -, e, já agora, facto pouco conhecido, pelo Partido Democrático do Atlântico, mas também porque se apresenta na corrida a Belém para tirar o poiso ao Prof. Cavaco Silva. Não se candidata, objectivamente, para muito mais.

O Dr. Manuel Alegre baseia a sua campanha eleitoral a dizer que defende o Estado Social, e que a sua eleição para Presidente da República é o garante da continuidade desse projecto de Abril. Mas também vejo Francisco Lopes a defender isso, por isso não é o único. O Dr. Manuel Alegre diz que será um Presidente justo e solidário. Bonito de se dizer e ainda mais de se ouvir ou ler. Mas o que é que isso significa? A justiça compete aos tribunais e à Assembleia da República, quando faz as leis. A solidariedade significa que o Dr. Manuel Alegre abrirá, qual Hugo Chavez na Venezuela, as portas do Palácio de Belém para que sem-abrigo possam lá dormir? Não me parece. Nas suas poucas propostas encontramos uma tentativa de diálogo com a União Europeia que hoje existe. A mesma UE que, através dos donos França/Alemanha, subjuga os outros países à sua vontade. Dialogar com a UE é o mesmo que tentar dialogar com um leão faminto. O que se tem de fazer é apontar o dedo, acusar quem deve ser acusado e dizer a verdade do que está a acontecer - os países periféricos serem lacaios do bloco franco-germânico. Romper com estas políticas que nos fazem perder dinheiro e arranjar políticas que resultem, com ou sem o aval da UE, e pressionar para que aconteçam. Não é isto que eu vejo o Dr. Manuel Alegre a querer fazer. O mesmo Dr. Manuel Alegre do PS que tem o apoio directo do Governo e dos altos dirigentes ditos "socialistas" que são quem nos tem andado a empurrar cada vez mais fundo para dentro do poço. Não, eu não quero um Dr. Manuel Alegre como Presidente porque é um candidato que é comprometido com todas as políticas que o PS tem feito. Porque pode ser apoiado pelo BE, mas milita no PS, no centro, ora esquerda ora direita, não no BE que, apesar de tudo, é de esquerda. Eu não quero um Presidente da República que milita no partido que é o maior responsável do gravoso Orçamento de Estado de 2011 e que disse ser necessário.

No entanto, é imperioso admitir que é o candidato que mais possibilidades tem, à data, de ir a uma hipotética segunda volta com o Prof. Cavaco Silva. E, caso isso aconteça, há a possibilidade de escolher entre o menor de dois males e, assim como assim, de vez em quando o PS ainda é de esquerda. Numa hipotética segunda volta, o meu apoio está em Manuel Alegre, mas não contente. Mas nesta primeira, é com contento que não lhe dou o meu apoio.

2011/01/18

De tiririquices

É oficial, o fenómeno Tiririca chegou a Portugal. Sem o número de apoiantes do palhaço brasileiro, é certo e graças a Zeus. Mas, ainda assim, é um Tiririca bem português. Falo, claro está, do candidato José Manuel Coelho, auto-designado comunista, mas pertencente e apoiado pelo Partido da Nova Democracia. É um candidato. Mas não muito mais que isso. Para além de uma prestação fabulosa no debate frente a Judite de Sousa (que foi disso que se tratou, de um debate) e de um bestial dizer mal do Dr. Alberto João Jardim, não se sabe mais deste candidato. Sabe-se que é contra a corrupção e sabe-se que acha o Prof. Cavaco Silva um bocado má pessoa. Mas, c'oa breca!, essas duas coisas também todos os outros candidatos (com a óbvia excepção) acham e são mais sérios que o candidato José Manuel Coelho! Eu próprio acho e não ambiciono ser alguma vez candidato à Presidência da República! Sendo assim, tirando as palhacisses, o que me faz não votar em José Manuel Coelho?

Não voto no candidato José Manuel Coelho por nenhum grande motivo. Não voto nele porque não vejo nesse candidato proposta alguma. Ao passo que alguns pecam por excessos de propostas ou por coisas que não podem cumprir, de José Manuel Coelho sabe-se não gostar do Dr. Alberto João Jardim e de casas no Algarve. Agora, de resto, mais nada. É simples a razão porque não voto em José Manuel Coelho: o nada nao me cativa.

E, pronto, graças ao Tiririca português fiz o post mais curto desde algum tempo. Ufa!

2011/01/17

De clientelismos e corrupções

A grande bandeira do Dr. Defensor Moura nestas presidenciais é o combate à corrupção, ao clientelismo e pela regionalização. Nem muito mais, nem muito menos. Distancia-se das outras candidaturas por ser aquela que é, verdadeiramente, inútil. É uma candidatura cujo único propósito visível é termos um Dr. Defensor Moura a erguer as bandeiras que lhe marcam a personalidade política, com pouco ou nada conhecer das funções de um Presidente da República.

O combate contra o clientelismo e corrupção, "desde a mais pequena, a cunha" (citando o candidato) é algo importantíssimo e urgentíssimo. Enquanto houver corrupção, da mais alta à mais pequena, há uma série de consequências graves para todo o bom desenvolvimento do país, como seja o desemprego de mão de obra qualificada, o desvio de fundos e de dinheiros, a própria e tão amada especulação, et caetra. É urgente acabar com esses "cancros da sociedade" (novamente citando o candidato). Mas o que pode um Presidente da República, verdadeiramente competente, fazer para que isso aconteça? Um Presidente da República, na prática, o máximo que pode fazer é alertar os restantes órgãos de soberania para a situação danosa e corrupta que se vive. Mais nada. Pode alertar e, quanto muito, pedir à Assembleia da República que elabore leis que combatam eficazmente a corrupção. No entanto, apesar da discriminação por parte da comunicação social, fica aqui a nota que já foram apresentados projectos de lei nesse sentido, pelos mais diversos partidos, do CDS-PP ao PCP. Todas as propostas chumbadas ou aprovadas em pontos praticamente inúteis, pelo PS(D). São bandeiras boas numa campanha presidencial porque são bandeiras que o povo gosta. Mas não muito mais que isso. Não enquanto forem os corruptos a ter maioria, absoluta ou perto disso, nos órgãos de soberania, leia-se, sobretudo, Assembleia da República e Governo.

Depois a regionalização. A regionalização é, sem dúvida, importante para o nosso país, mas não de todo de acordo com o que o Dr. Defensor Moura defende. O candidato defende a regionalização como uma forma de combater a corrupção e de retirar poder da administração central. Concordando inteiramente com a segunda, custa-me imenso acreditar na primeira. Por uma questão simples de bom senso. É certo que haveria muito mais contacto com as populações, maior conhecimento das mesmas dos seus órgãos de soberania regionais (por oposição à redução do número de deputados, por exemplo), mas isso também o há nas Câmaras Municipais e é sabido por todos dos casos graves de corrupção que existem nessas instituições, de norte a sul do país. A haver regionalização é importante a verificação constante (algo que não existe na administração central, mas que deveria haver) dos respectivos órgãos soberanos, para evitar a corrupção e não diluí-la ou alastrá-la. O Dr. Defensor Moura está, assim, a agitar uma bandeira certa (e que precisa de ser agitada), mas com as cores erradas. Porque uma coisa que está inerentemente ligada à regionalização, e que é importante, é a distribuição dos dinheiros públicos. Actualmente essa distribuição é feita num sistema demasiado radom às autarquias para não se pensar que algo está mal e que a regionalização é necessária. Precisa-se da regionalização, sobretudo, para não deixar morrer o interior do país, através da construção de utilidades e atractivos nessas zonas, mas também através de um maior investimento público, regional, na criação de mais emprego. Relembro a posição do PS no referendo anterior acerca da regionalização: nenhuma. O PS foi um peso inútil que mais valia não se ter pronunciado. PS, relembre-se também, o partido ao qual pertence o Dr. Defensor Moura. A haver um novo referendo, urgente e necessário, sobre este assunto, veja-se qual a posição desse partido.

2011/01/14

De caminhos perigosos

Curta e grossamente, o Dr. Fernando Nobre representa dois perigos para a democracia. Se o faz de propósito ou acidentalmente, isso não sei, mas uma coisa é certíssima - o perigo do desconhecimento e o perigo anti-partidário são sinónimos da campanha do Dr. Fernando Nobre nestas presidenciais. Pulando a óbvia contradição de que ataca constantemente o sistema político, mas agora quer fazer parte dele, tenho uma série de coisas a dizer sobre um candidato cujo humanismo e vivência são exemplares, mas que, enquanto candidato, assemelha-se mais a um puto mal-comportado.

O Dr. Fernando Nobre parece estar perdido no meio de tantas políticas. Candidata-se a um cargo de representante do povo português, comandante supremo das forças armadas e não sabe muito bem o que isso significa. Significa, a grosso modo, que, arrisco-me a dizer, 90% das propostas que faz são inviáveis. Para não ser mais rude e dizer inúteis. Propõe o Dr. Fernando Nobre a criação de Conselho de Estado Informal, com a participação de jovens de todo o país, convocado mensalmente. Se, a uma primeira vista, esta proposta parece inocente e bem intencionado, esmiúçando bem consegue-se ver que esse Conselho de Estado Informal nada é mais do que uma ferramenta que o Dr. Fernando Nobre está a utilizar para cativar o voto a mais gente, leia-se, os jovens. O Conselho de Estado, de acordo com o Artigo 142º tem, entre membros permanentes - como os antigos Presidentes da República -, membros eleitos pela Assembleia da República - como, por exemplo, o Provedor de Justiça - e cinco membros designados pelo Presidente da República e cinco membros designados pela Assembleia da República. Criar, sem qualquer tipo de previsão constitucional sobre o assunto, um Conselho de Estado Informal, sem explicar o método de eleição, convocação e poderes atribuídos, é um atropelo à Constituição da República que o próprio Presidente jura fazer cumprir. E não é só pelo Artigo 142º. Vejamos o 144º, ponto 1, que também tem bastante interesse: "Compete ao Conselho de Estado Elaborar o seu regimento". Ao Conselho de Estado. Não compete ao Presidente da República (que tem a função sola de presidir ao Conselho) e, já agora, muito menos a um Presidente wannabe que não conhece a função para a qual se candidata. O que se segue é, seguramente, dos piores. O Dr. Fernando Nobre propõe-se a, se for eleito, passar uma semana por ano nos Açores e outra na Madeira. Aqui comete uma atrocidade enquanto candidato a Presidente da República que quase me deixa sem palavras. Quase. Portanto, numa tentativa de cativar votos nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, o Dr. Fernando Nobre propõe-se a passar lá uma semana por ano, em cada uma, revelando assim, claro, que está, não a demonstrar que se preocupa com todo o Portugal de igual modo, mas que se preocupa com a Madeira e com os Açores duas vezes por ano, fazendo visitas oficiais, de qual país estrangeiro se tratasse. Ou passando férias. De qualquer modo considero, mero mortal, que uma descriminação atentadamente positiva, revela-se como sendo profundamente negativa e portadora de uma maior argumentação de quem acusa o Continente de ser demasiado pouco voltado para as Ilhas. Estou em crer que, com o Dr. Fernando Nobre, o Dr. Alberto João Jardim sofria mais uns quantos ataques cardíacos...

A última que me proponho a analisar é a pior de todas, a mais demagógica, a mais anti-democrática e sem dúvida a mais populista. O Dr. Fernando Nobre propõe que se reduzam os deputados para 100. E usa como argumento o facto de existirem poucos habitantes por deputado (ou seja, por existirem cerca de um deputado por cinquenta mil habitantes, mais coisa menos coisa), coisa absurda que não existe em mais lugar do Mundo, segundo o Dr. Fernando Nobre. E aponta a França, a Alemanha e a Espanha onde os números confirmam, de facto, o que ele diz. Mas "esquece-se" muito convenientemente o candidato Dr. Fernando Nobre, de olhar para os países com população semelhante à de Portugal. A Bélgica, com pouco mais de 10 milhões e 200 mil habitantes, tem no seu Parlamento Federal, entre deputados e senadores, 223 pessoas ao serviço do povo. A República Checa tem um número semelhante de habitantes e, também entre deputados e senadores, 281 pessoas no seu Parlamento. A Hungria mal passa dos 10 milhões de habitantes e tem, nada mais, nada menos, que 386 lugares na sua Assembleia Nacional. A Grécia, com um número de habitantes pouco superior a 11 milhões e 300 mil é o que, em termos de população, mais se assemelha a Portugal. E conta com o espantoso número de 300 pessoas no seu Parlamento Helénico! E depois é um crime Portugal não ter número de deputados mais reduzido. Mas, revelada a estupidez da questão, vejamos porque é perigosa para a democracia em que vivemos. Estamos numa democracia representativa. Isso significa, Dr. Fernando Nobre, que não são os cidadãos directamente eleitos para os órgãos de soberania (à excepção do Presidente da República), mas são-no, sim, em listas partidárias ou de movimentos de cidadãos. Partidos, esses, há-os na Assembleia que actualmente temos, em todos os gostos, da direita à esquerda, passando pela faixa central. E todos eles têm em comum terem sido eleitos pelos mais diversos círculos partidários, qualquer um dos vinte e dois círculos que existem. Ora, na proposta do Dr. Fernando Nobre, pode verificar-se que o candidato quer que os deputados sejam reduzidos para 100 para fazerem um melhor trabalho e, mais importante, manterem um contacto mais pessoal com quem os elege, em cada um dos círculos eleitorais. Dr. Fernando Nobre, a minha área é tudo menos matemática, mas até eu me apercebo que, com a redução de deputados para 100, há círculos eleitorais que desaparecem ou, pura e simplesmente, elegem qualquer coisa como meio deputado. Como é que os deputados poderiam manter um contacto com a população que os elegia se não existia essa população representada por deputado algum na Assembleia da República? Isso levaria também ao gravíssimo problema da eleição dos partidos que não o PS ou o PSD. Esses partidos ou coligações (CDU, BE e CDS-PP) veriam representados na Assembleia da República apenas os deputados que elegeriam (se elegessem) por Lisboa ou pelo Porto. Assim, assumindo que o leitor ainda não tem provas suficientes do ridículo que é esta proposta, apresento o argumento do paradoxo. Para a proposta resultar, efectivamente, sem o estrangulamento de nenhuma população distrital ou sem o desaparecer de partidos políticos, poderia ser criado um círculo uninominal, apenas. Isto é, todos os eleitores votavam em todos os candidatos numa lista única, comum a todo o país, à semelhança do que já acontece nas eleições para o Parlamento Europeu. No entanto, isto fazia aquilo que o Dr. Fernando Nobre abomina em toda a sua campanha: o distanciamento político dos cidadãos eleitores. Portanto, em paradoxo, esta hipótese auto-exclui-se pelas propostas do Dr. Fernando Nobre. Ai, ai, ai, que dor de cabeça!

Dr. Fernando Nobre, o político que abomina a política, fez aquilo que os maus políticos mais e melhor sabem fazer: prometer o que nunca poderá cumprir.